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"Cria", por Livando Malcher.

Publicado: Quinta, 07 de Julho de 2016, 11h51 | Última atualização em Segunda, 18 de Julho de 2016, 11h59 | Acessos: 1452

 

Mergulho

     Uma nave vaga pelos rios de um cosmos amazônida em uma viagem sem destino aparente, posto que do nascimento à morte - passagem para outras dimensões-, não sabemos ao certo em que portos iremos ancorar nossas energias e emoções. Cria é o resultado de uma produção de trabalhos feitos a partir de um exercício do olhar lançado para algumas obras de Livando Malcher. Ao fazer uma imersão em seus trabalhos, buscando uma narrativa poética construída ou sugerida na sua trajetória recente, a âncora se aprofunda e faz a primeira pausa: existe aqui e ali uma realidade fantástica, algumas vezes mística, que sugere contemplação, representada através do olhar infantil.

     Nessa bela e sensorial visita ao seu lugar-criança (ou criança interior), Livando torna desperto o olhar partindo desta perspectiva, reconhecendo traços de espontaneidade e ingenuidade. Nesta viagem de desconstrução, a essência emana do fundo do rio, como os encantados da beira, deixando ver as raízes, permitindo o contato com a potência de autorealização e síntese. Aqui a autenticidade genuína da criança aparece como horizonte criativo.

Criança e cura

     Ao longo da imersão para a produção de Cria, histórias e estórias re-surgiram, atravessaram outras memórias e outros espaços-tempo, misturando-se à conceitos e mitos que relacionam a criança a renovação, a cura ou ao sagrado, como o Deus-menino Krishna, o menino Jesus, os Êres da Umbanda ou Cosme e Damião. Na mitologia grega, Caronte, o barqueiro de Hades, conduz a barca que carregava as almas dos que acabaram de morrer sobre as águas do rio Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos e alguns heróis, entre eles Orfeu, Dionísio e Psiquê, conseguiram ir e voltar do mundo inferior, ainda vivos, trazidos pela mesma barca.

    O símbolo da criança ainda contém o elemento da juvenilidade... ela começa um novo trecho da vida, algo que ainda contém a plenitude do começo, das possibilidades inesgotáveis. Dialongando assim, com o percurso do artista, pois essa é sua primeira exposição individual.

     Aqui nesses rios de memórias, diversos cais flutuantes surgem trazendo vívidas fragmentos de outros tempos, e pouco a pouco, vai-se nos distanciando (sorrindo) a nossa criança interior, que é barqueiro e barca ao mesmo tempo, simbolizando um estado de "cura" ou "salvação". Algo no fundo de nós tem consciência que possuímos uma identidade única que não é o rosto que apresentamos ao mundo, tampouco a imagem que fingimos ver no espelho.

    A inocência desta criança mitológica é portadora de tão intensa luz, que já nos acendeu a sagrada visão e iluminou partes obscuras de nosso passado, vencendo as trevas do vir-a-ser-adulto. Cria, criando, criativa, girando, mundiando a persona que viramos ao crescer. A convite do artista, o olhar do visitante passeia até encontrar sua criança interior, que se comunica através de códigos presentes no sentido universal da criança, como brincadeiras ou o olhar inocente sobre sua realidade. No passeio sobre as águas de uma nascente mítica do artista, aportamos nos trapiches do seu imaginário e encontramos nossa própria “cria” brincando, pulando, rindo, chorando, exercendo sua criancice plena e vigorosamente autêntica.

Renata Maués

 

 

   

                                                                 

                           

   

 

 

Serviço

Exposição “Cria", por Liv Malcher.

Visitação: A exposição  seguirá até o dia 31 de julho das 09:00 às 18h.

Onde: Galeria Theodoro Braga, na Fundação Cultural do Pará (Av. Gentil Bittencourt, 650).

Entrada gratuita.

 

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